
Um pouco de tudo e muito de nada. Livros, comida, filmes, viagens físicas e, às vezes, metafísicas... Nada escapa!



Caros amigos,
Recebi esse texto de uma amiga que está fazendo especialização numa área "não-comercial" chamada de DEP (Dinâmica Energética do Psiquismo) e me senti mais uma vez tocado, o que me fez querer compartilhá-lo. Acredito que o nosso caminho é construído dessa maneira, todos juntos. Para quem quiser saber mais, o texto é um excerto da página 48 do livro EM BUSCA DE UMA PSICOLOGIA DO DESPERTAR - Budismo, Psicoterapia e O Caminho da Transformação Espiritual Individual. (John Wellwood - Editora Rocco).
Beijos e abraços a todos!
Como converter os medos e as fixações de nossa personalidade em pontos de partida para o caminho do despertar? Antes que mudanças verdadeiras se tornem possíveis, precisamos ver, sentir e entender O QUE REALMENTE EXISTE - em contrapartida à nossa versão habitual da realidade. Isso não é fácil. Ficamos cegos com nossas esperanças e medos, formas antigas de sentimento e percepção, convicções e opiniões favoritas. Por isso, o primeiro passo para transformar a personalidade em caminho é assumir o compromisso de nos vermos como realmente somos, mesmo que detestemos aquilo que descobrimos.
Uma prática que refine a percepção, como a meditação ou o autoquestionamento contemplativo, é sempre útil para desenvolver a capacidade de testemunhar nossos atos sem nos prendermos a julgamentos de bom e mau. Ao nos sentarmos em silêncio em nossa própria companhia, enxergamos as tentativas contínuas de manter a identidade e a forma pela qual nossos pensamentos funcionam como uma espécie de cola, mantendo coesa a estrutura da personalidade. À medida que a estrutura se solta, maiores quantidades de nosso ser, anteriormente cobertas por ela, começam a ser reveladas.
É claro que nem sempre gostamos do que descobrimos. Defrontamo-nos com a dor do nosso carma - o padrão emaranhado de nossas ações e reações, condicionamentos acumulados, hábitos, mecanismos inconscientes e medos. Como disse um buscador espiritual bem-humorado, “autoconhecimento significa más notícias”, pelo menos no início.
Nessa altura, não é suficiente apenas reconhecer aquilo que existe: precisamos também criar um relacionamento mais pleno com o que existe. Isso significa abrir o coração para a nossa situação - senti-la, olhar para ela de frente e deixar que ela nos toque. Não precisamos necessariamente gostar do que vemos. Se detestamos certas partes de nós, também podemos trabalhar cm nosso ódio, considerando-
Focalizar a atenção na dor de nosso aprisionamento a padrões costuma ativar uma tristeza que existe no fundo de nós - que eu chamo de “tristeza purificadora”
(pág. 51)
...Dentro de cada ferida existe uma benção oculta. Se nos culparmos por nossos padrões de personalidade, não poderemos ter acesso a dádiva que eles trazem e nos empobrecemos mais ainda. Qualquer coisa contra a qual estejamos em luta, por mais neurótica que pareça, pode ser um ponto de partida para um caminho melhor. Qualquer problema, assunto não resolvido ou confusão internos aparentemente impossíveis de solucionar se transformarão em caminho se caminharmos resolutamente em sua direção e nos relacionarmos com ele.
É fácil sentirmo-nos desencorajados pelos obstáculos da vida e perguntar: “Por que é tão difícil a condição humana; por que tenho que passar por tudo isso; por que não tenho mais sabedoria? Em nosso desespero, deixamos de dar valor ao fato de que a evolução humana é um CAMINHO. A iluminação não é uma meta ideal, um estado mental perfeito ou uma dimensão espiritual elevada, mas uma jornada que acontece aqui na Terra. É o processo de despertar para o que somos e nos relacionarmos com isso.
Como começamos nossa vida em um estado completamente vulnerável, precisamos construir uma personalidade para nos proteger. ... Todas as defesas de nossa personalidade são inteiramente compreensíveis e todas tem seu valor e sua inteligência. Além disso, elas nos fornecem um caminho. Ao sentir o peso e as restrições da personalidade condicionada, somos motivados a buscar nossa natureza maior. O problema não é a personalidade, mas nossa recusa em crescer além dela - o que faz de nós um caso de desenvolvimento interrompido.
O budismo tântrico usa a metáfora da cobra se desenrolando no ar para descrever o processo do despertar. Os anéis de nossa neurose contêm dentro deles uma energia selvagem e crua. Para desenrolá-los e nos libertarmos de sua prisão não é necessário matar a cobra, nem sublimar esta energia por meio de formas de comportamento socialmente aceitas. Podemos simplesmente permitir que os anéis façam o que querem fazer naturalmente -se desenrolar- e teremos seu enorme poder e vibração à nossa disposição. O que permite à cobra enrolada da mente se desenrolar é a percepção e a compaixão. A compaixão não tenta suprimir a selvageria da cobra, mas simplesmente usa as energias contidas nas neuroses para nos impelir para frente. E este caminho - a liberação das qualidades de nosso ser, festejando-as e afirmando-as, e usando-as para ajudar a nós mesmos e aos outros - é infindável.


“If we admit that human life can be ruled by reason, then all possibility of life is destroyed”.
Ontem terminei de assistir o filme “Na natureza selvagem”. Intrigante. Passional. Triste. Apaixonante. Comovente. Inquietante. Lindo. O filme definitivamente entrou na minha lista dos top 10. Quando terminou, desliguei tudo, menos eu mesmo. Simplesmente ainda não consegui parar de pensar na jornada pessoal que o personagem principal empreendeu e a cada momento volta a minha mente uma frase, uma cena ou um sentimento. Esse filme é no mínimo perturbador pelo misto de emoções que faz virem à tona. Eu ainda estou “uaaaaau, meu Deus!” E passei o dia me lembrando de um trecho de uma música da Alanis onde ela diz I wanna return to what I was born to be...
Sim, acredito que cada um de nós realmente nasceu para ser alguma coisa, mas como a Karol comentou em seu post Ousadia, é preciso muita coragem pra romper com tudo e cumprir a ordem do coração. E também acredito que boa parte desse vazio que nunca nos abandona é causado pela desconexão com nós mesmos. A partir do momento em que a motivação das nossas escolhas é externa, nesse ponto começamos a nos abandonar. “O que vão pensar de mim se eu (não) fizer/disser/escolher...?”, “Preciso vencer, pois meu vizinho venceu.”, “Quero que me aprovem/amem/admirem.”, “Não tenho coragem de...” "Preciso dar orgulho aos meus pais" etc. são apenas alguns dos inúmeros pensamentos que nos desviam de nós. Mas aqui dentro, assim como dentro de cada um, tem alguém que há muito tempo quer preencher esse tão conhecido buraco na alma e quer sentir a certeza de estar no próprio caminho e em paz consigo mesmo. E não tem caminho igual, cada um tem que percorrer o seu rumo à auto-descoberta. O principal objetivo de Christopher McCandless era libertar-se de seu falso ser interior, da pessoa que ele tinha medo de se tornar se aderisse inquestionavelmente às convenções sociais.
Mesmo que não seja hoje ou amanhã ou semana que vem, mas tente assistir esse filme, você não vai se arrepender. Abaixo segue o trailer e logo depois alguns comentários que serão spoiler total. Recomendo não lê-los a não ser que você já tenha visto o filme, por que certamente vai tirar o encantamento da história que vai evoluindo, lhe cativando e captando até o final.
Beijos e abraços a todos.
OK, eis aqui abaixo os meus comentários. Só pra não correr o risco de você dizer que não resistiu e leu sem querer, escrevi o texto com suco de limão pra ficar invisível. Pra ler, coloque no fogo (marque o texto com o mouse!) ;-)
Sabe aquelas pessoas que por uma razão que você não consegue explicar têm uma aura, um magnetismo e que são cativantes? Christopher McCandless era assim. Ele tinha aqueles elementos que todo mundo ama mesmo sem identificar racionalmente: intensidade, convicção, paixão, verdade, pureza. Não foi à toa que todos que o conheceram quiseram dissuadi-lo de ir adiante, você quer ter alguém daquele jeito por perto. Assisti ao filme sem saber sobre o que era. Um amigo me recomendava havia tempos e eu na minha velha inércia nunca pegava na locadora, até que ele finalmente me deu de presente. Caralho! Eu sequer sabia que era baseado em fatos reais. Quando chegou o final, que mostrou uma das poucas fotos do cara, eu fiquei com um nó na garganta. A cena em que o Ron pede pra ele ficar é de chorar. Naquele momento você percebe a tristeza e a dor do homem experiente que já esteve no lugar daquele jovem obstinado e que com sua sabedoria entende que naquela idade é inútil tentar conter tanta paixão. Christopher era brilhante, inteligente e não fez o que fez por ser um aventureiro ou doido. Antes de partir ele provou pra si mesmo, pros pais e pro mundo que ele tinha capacidade de entrar até em Harvard, portanto o motivo de sua jornada não seria fuga, embora acredite que sua busca pela verdade tenha se originado em parte pela dor e por fuga dos sentimentos com os quais ele não conseguia lidar. Conversando com algumas pessoas que também viram o filme, percebi que a maioria dos homens gostou muito enquanto que as mulheres o acharam triste e/ou deprimente. Talvez devido a, via de regra, o homem querer ser livre enquanto a mulher tenda a querer estabelecer laços e criar raízes.
O filme fala de uma liberdade num nível quase utópico. Christopher pretendia ser totalmente livre do apego ao dinheiro, da hipocrisia, da vida de fachada, da política suja, dos valores burgueses e até do apego sentimental. Tal qual Leonardo di Caprio em Titanic, ele só precisava do ar em seus pulmões. Me doeu muito a cena em que ele quis voltar, mas não conseguiu. Ali ele já tinha fechado o longo ciclo que precisava percorrer e já havia aprendido o que o silêncio e o isolamento tiveram pra lhe ensinar. Angustiante também era a perda que os pais sofreram, porque creio que pior do que uma pessoa morrer deve ser ela simplesmente desaparecer, pois nesse caso a história não se encerra. A fotografia do filme é lindíssima. A trilha sonora também. Vou assisti-lo de tempos em tempos.
Beijos e abraços.